segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

PROCESSO CRIATIVO

Eu era uma grande escritora até os 70 anos, quando tive uma dor de cabeça. Desde que meu último médico me proibiu o uso de substâncias alucinógenas, alegando que só a maconha que eu já queimara até os sessenta e poucos já era suficiente para salvar até os bisnetos dos meus bisnetos do glaucoma, tive que recorrer a métodos mais lentos para alterar a consciência: então eu estava, como em todos os meus domingos sem promessa de pessoa inútil em que a idade me tornara, deitada no sofá, de pernas abertas e sem calcinha, concentrada em não cerrar as pálpebras, com os olhos num ponto fixo, até perceber as coisas como se elas estivessem se desfazendo. Eu tirava os óculos, esvaziava os olhos da função de ver e me divertia com o derretimento ilusório das coisas como se fosse palpável, como se os móveis e os eletrodomésticos e as paredes estivessem mesmo ganhando vida e pele peristáltica de molusco, quando, na verdade, bastava o mais leve movimento ou mesmo o fechar automático das pálpebras pela necessidade de umedecer as pupilas para restaurar diante dos olhos os aspectos mais sólidos, empíricos e sinestésicos do universo que se conhece desde antes de Newton, sem falar na função natural dos olhos. Acontece que isso nunca antes me deu dor de cabeça; apenas aquele tédio que, quando não angustia, serve para dormir, e dentro do qual, moralmente relaxada, eu chegava a conclusões terríveis sobre a humanidade que me faziam rir.

Minha cabeça doía e tudo começou, quando achei que nada mais teria começo, porque a minha cabeça doía, e bastou esse pequeno fato para eu me lembrar de que tinha um corpo imprevisível e para pôr a perder a rotina da qual eu sempre fugira e enfim se impusera, ironicamente quando nenhum dos meus cinco maridos, que gostariam tanto de me ver comportada, estava vivo para me ver dentro de limites preestabelecidos. Levantar do sofá, espalhar a saia sobre os joelhos, fazer os pés tocarem o chão, nada disso fez com que a ilusão de que as coisas se distorciam se desfizesse, mas o meu tato me alertava de que aquele pesadelo divertido não se tornara real; era eu que, com a cabeça doendo, não conseguia voltar à sensação normal e natural das coisas. Para piorar, não encontrei os óculos; não que eles fossem servir muito porque não era uma questão de correção visual, mas eu preferia estar segura pelo menos de onde estavam as coisas.


[continua]



Um comentário:

bslessa disse...

Airton, estou aguardando a continuação! Benigna.